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O ponto-e-vírgula vive! (1)

Cláudio Moreno

Na hora do cafezinho, numa das pontas da mesa, brotou uma daquelas bem-humoradas discussões que coroam todo jantar em que bons amigos se reúnem em torno da boa comida. Falavam, não sei por quê, em espécies em extinção; citaram o panda-gigante, a ararinha-azul, o mico-leão-dourado e o ex-cantor Sting. “E o ponto-e-vírgula?”, perguntei, em tom de brincadeira - "Quando vão formar uma ONG para defender este pobre bichinho?". Para minha surpresa, um dos presentes, grande admirador da belíssima primeira-dama da França, informou que o presidente Sarkozy, faz alguns meses, havia instruído todo o seu ministério a reabilitar o uso deste sinal nos documentos administrativos, tendo fixado, por página, o mínimo de três ponto-e-vírgulas (mas cá para nós, que plural mais "singular”!). Tal medida teria como objetivo combater a tirania da frase curta, curtíssima - verdadeira praga que assola o estilo moderno -, fazendo voltar os elegantes e articulados períodos que sempre caracterizaram a sintaxe da língua em que brilharam Bossuet, Voltaire e Flaubert.

Embora desconfiado com a veracidade da informação, declarei, na hora, que morria de inveja dos franceses, pois o máximo que nossos políticos sabiam propor, em termos de idioma, eram asneiras como proibir estrangeirismos ou - juro que não estou fazendo troça - abolir a crase! É claro que, chegando em casa, fui correndo à internet para conferir o ato de Sarkozy - e, como eu já suspeitava, era apenas uma brincadeira. Inteligente, sim, mas brincadeira, a começar pela falsa "portaria" governamental, datada de 1/4/2008, ou seja, bem no primeiro de abril, dia internacional dos crédulos e dos tolos... Alguns jornalistas perceberam imediatamente o logro, outros demoraram um pouco mais, mas - o que realmente importa - os autores conseguiram, com seu trote bem-intencionado, despertar uma ampla discussão sobre a utilidade do ponto-e-vírgula e as perspectivas de sua sobrevivência.

O que realmente me deu inveja, admito, foi ver que lá, entre os franceses, ainda perdura um certo respeito por este sinal, mesmo por aqueles que confessam não usá-lo há muitos anos. O depoimento das novas gerações, infelizmente, deixa entrever que o ponto-e-vírgula vai se tornar cada vez mais raro na França, como já o é na maioria dos países ocidentais, incluindo o nosso - a menos que se desenvolva uma campanha permanente para esclarecer os efeitos que ele traz para uma pontuação bem estruturada. O pequeno prestígio de que ele hoje desfruta entre nós - como se diz por aqui, ele anda com um "baixíssimo ibope" - é devido, imagino, ao velho equívoco teórico, ainda disseminado na maior parte das gramáticas e dos livros escolares, de associar os sinais de pontuação com as pausas que fazemos durante a leitura.

O que vou dizer é óbvio, mas deve ser dito: faz muito tempo que as pausas deixaram de ser o motivo para pontuar um texto. Esse era o modelo antigo, que imperou, absoluto, da Antiguidade Clássica até a Idade Média, quando o Ocidente ainda não havia introjetado o hábito da leitura silenciosa. Até o Renascimento, a maioria dos leitores liam em voz alta, e os sinais de pontuação serviam, portanto, para marcar as pausas e as entonações. À medida que a leitura passou a ser silenciosa (e, por esse motivo, muito mais rápida), deixou de ser necessário fazer a marcação das pausas, liberando a pontuação para outra finalidade muito mais importante: facilitar ao leitor o reconhecimento instantâneo da estrutura sintática das frases. Ao pontuarmos um texto, estamos fornecendo indicações que vão permitir a nossos diferentes leitores percorrê-lo sem hesitações ou embaraços.

Apesar do predomínio absoluto da leitura silenciosa, ainda hoje não se consolidou completamente a passagem do antigo sistema de pontuação para o atual, baseado na estrutura sintática. Em 1737, o tratado Bibliotheca Technologica, do erudito inglês Benjamin Martin, tenta ingenuamente fixar a duração dessas pausas: "A pausa da vírgula dura o tempo que você leva para dizer um. A do ponto-e-vírgula dura o tempo de contar até dois. A do dois-pontos, o tempo de contar até três; e a do ponto final, o tempo que você leva para contar até quatro". Pois não é que, até hoje, nossos melhores dicionários continuam com a mesma lengalenga? O próprio Houaiss, meu preferido, define o ponto-e-vírgula como "sinal de pontuação que indica pausa mais forte que a da vírgula e menos que a do ponto"! Coitado! Na divisão das competências, coube-lhe uma função indefinida e subalterna, no meio do caminho entre a vírgula e o ponto.Com um valor tão impreciso assim, não espanta que seu emprego tenha se tornado cada vez mais raro.

(Continua)


Sábado, 12 de dezembro de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.